O poema Frágil Coruja, do livro “Soluço“, traduzido para o alemão por Henrique Moraes.

FRAGILE EULE

Sie wird auf dem höchsten Fach im Regal stehen,
die Eule aus Kristall, die meine Mutter
von meiner Oma erbte.
Ein fragiles Artefakt,
lange dachten wir nach, wohin damit,
die Spannung zwischen Ausstellen und Schützen
sich fast gegenseitig ausschließend.
Wir bestellten einen Sockel, damit
sich die Eule besser im Gleichgewicht hielt,
wir stellten uns den Unfug der möglichen Enkel vor,
den Einfall der wirklichen Spatzen,
die fremden oder vertrauten Diebe,
man kann nicht auf alles gefasst sein, nichts
kostet ein Versuch,
aber da fassten wir den Entschluss,
Konsens sogar
unter Tanten und Cousinen.
Ein feiner Kristall mit Provenienz,
Das Licht passiert ihn und durchflutet den Raum,
ein passgerechter Geist.
Die Eule lieben alle,
auch Besucher haben ihre Freude daran.
So zerbrechlich, so gut aufgehoben,
seit so vielen Jahren
weiterlebend,
es war doch der beste Platz, sie auszustellen,
sie ist nicht zerbrochen.
Wird die Zukunft aufgegeben haben?


FRÁGIL CORUJA

Vai ficar na prateleira mais alta da estante,
a coruja de cristal que minha mãe 
herdou de minha avó.
Um artefato frágil,
pensamos muito em onde colocá-lo,
a tensão entre expor e proteger, 
quase excludente.
Encomendamos uma base para 
que se equilibrasse melhor a coruja,
imaginamos a bagunça dos possíveis netos, 
a invasão de pássaros reais,
os ladrões estranhos ou familiares, 
não dá para se precaver de tudo, não 
custa tentar,
mas chegamos a uma boa decisão,
um consenso entre tias e primas
inclusive.
O cristal é fino e de procedência, 
a luz lhe atravessa e enche a sala de cor,
um espírito próprio. 
A coruja é amada por todas, 
quem visita também se deleita.
Tão delicada, tão bem guardada,
quase-viva
há tantos anos,
foi mesmo o melhor lugar para exibi-la, 
não se quebrou.
Terá o futuro desistido?